05/10/2011 às 13:01 - Da Redação

Falta coragem para Walcyr Carrasco

O que incomoda em “Morde & Assopra”

Se Walcyr Carrasco e Aguinaldo Silva andam brigando, elogiar um é praticamente assinar o atestado que não gosta do outro. No texto de estreia deste blog “Fina Estampa” foi altamente elogiada. No texto de hoje vou dizer o que me incomoda em “Morde & Assopra”. Então se você, leitor mais apaixonado, achar que isso significa apenas uma predileção por autores, peço que pare agora e nem siga lendo. Vai ser melhor pra todo mundo. Agora se você é da turma que ter opinião significa apenas ter opinião e nada mais, vem comigo.

Quando vejo uma novela, uma série ou um filme, a única coisa que eu não gosto é que me façam de bobo. E isso não significa, por exemplo, que eu não concorde com um carro voando, ou um menino que vira lobo. Sou muito fã de histórias de realismo fantástico. Aliás, em “Morde & Assopra”, isso passa batido. Desde o começo apontaram que o erro estava no robô falante e nos dinossauros extintos que só apareciam em sonhos da protagonista. Isso nunca foi o problema. O desencaixe da história esteve sempre na tentativa que Walcyr Carrasco tem em todo começo das suas histórias, de querer fazer algo diferente.

É só analisar os primeiros capítulos e o de ontem que você vai ver que é outra novela. E é sempre assim com Carrasco. Da metade da novela até o final, depois que todos personagens já foram apresentados e assimilados pelo público, e que já se sabe quem faz sucesso ou não, a novela vira um amontoado de cenas de casamentos, jantares, encontros, desfiles, bailes, shows, inaugurações, tudo para que todo elenco possa ser reunido. E aí é o feijão com arroz básico do autor, uma pérola pra um, outra pra outro, um bate-rebate de falas que envolvem geralmente uma palavra pejorativa (velha, avarento, gorda, enrugada) e algum nome de animal (vespa, abelha, burro, cavalona). Isso sem falar na overdose de cenas que não levam a lugar algum de personagens que caíram na boca do povo. André Gonçalves, Cássia Kiss e Vera Mancini devem estar exaustos

Walcyr Carrasco não me faz de bobo quando coloca uma robô salvando uma humana em um julgamento. Isso é louco, mas é condizente com a história. Ele me faz de bobo quando de uma hora pra outra muda o caráter de uma personagem. Quando falta história e a novela precisa ser enxertada com esquetes e cenas de personagem falando sozinho. Quando tudo não passa de bordões, sotaques carregados e interpretações exageradas. Ele me faz de bobo quando não exercita sua originalidade como autor, e em troca de audiência faz o que já sabe fazer há anos. São poucos os autores que arriscam e levam nas costas uma novela sem audiência.  Muitos já fizeram isso pra tentar um novo estilo, alguns foram bem sucedidos. Falta coragem para Walcyr Carrasco.